O lado obscuro da beleza

By Lucas Fuschino

Em todo o Distrito Federal, existem cerca de nove mil salões. Diariamente, cada um pode atender até dez pessoas. Este fato, por mais simples que pareça, ocasiona o despejo anual de milhões de litros de água contaminada na rede de esgoto. E isso não é tudo. Ainda há o descarte inadequado de toneladas de lixo com resíduos químicos no lixo comum. Edmundo Gadelha, assessor de planejamento do SLU (Sistema de Limpeza Urbana), explica: “Os lixos dos salões devem ter a mesma classificação que o lixo hospitalar que é considerado lixo de alta periculosidade. E o controle, acomodação, separação e descarte deveriam ser os mesmos. Como o hospital é responsável pelo seu próprio lixo, no salão não deveria ser diferente”.

Tinturas, permanentes, progressivas, alisamentos e descolorações. Em cada procedimento é utilizado um produto químico diferente. No cabelo, o resultado é certo. Alisar, cachear, mudar a cor. Porém, depois que o produto desce pelo ralo do salão ou é jogado fora no lixo comum, as conseqüências são inesperadas.
Amônia, água oxigenada, hidróxido de sódio e o formol, são produtos químicos utilizados para vários tipos de tratamento. Muitos destes componentes possuem fórmula pronta de fábrica. O formol é proibido pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) devido ao risco em sua aplicação, inalação do gás e pelo contato com a pele, sendo perigoso tanto para os usuários quanto para profissionais que aplicam o produto. Além disso, ele pode causar sérios males ao meio ambiente.

Cada salão atende em média, 6 a 8 clientes por dia. Dependendo do dia, esse número pode triplicar. De acordo com a cabeleireira Solany de Paula, do Studio A, no setor Sudoeste, em seu salão utiliza-se em média 1L para oito procedimentos na realização de escovas progressivas. O resultado desse cálculo pode ser mais prejudicial do que se espera. Marcília de Sousa, cabeleireira do Salão PJ Fashion, de Planaltina, diz que chega a fazer três ou mais alisamentos por dia e, muitas vezes, é a própria cliente que pede para aumentar a quantidade do formol para que o efeito fique melhor. Segundo a Vigilância Sanitária, a fiscalização além de não ser constante também deixa a desejar. “Sempre fazemos fiscalização, porém, é difícil flagrar quando estão manipulando produtos”, declara a inspetora Denise Orbage.

No SINCAAB, a informação que se tem é que os salões filiados ao sindicato recebem regularmente treinamentos, palestras e congressos para atualizar os profissionais sobre os procedimentos relacionados à higienização. Contudo, somente 4215 estabelecimentos são registrados, o que dificulta a propagação das informações a todos. “Somos apenas orientadores. Não temos permissão de interferir no uso dos produtos químicos dos salões como, por exemplo, o formol”.

Por água abaixo

Segundo a Coordenadora da Comissão de Resíduos da Universidade de Brasília (UnB) Patrícia Lootens, na CAESB (Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal), ainda não existe um estudo próprio sobre o assunto. O tratamento do esgoto, como um todo, é feito em cima dos fosfatos e nitrogênios e não solventes orgânicos como é classificado esse tipo de produto químico. E, não é possível fazer um controle sobre tudo o que é despejado pelos ralos.

Seria preciso um grande investimento para modernizá-las. E como não há legislação sobre o assunto no país, as empresas que tratam a água ainda não estão agindo. A solução seria tratar completamente o esgoto do país. Em Brasília 90% da rede de esgoto é conectada a rede da CAESB. Dados da ANA (Agência Nacional de Águas) informam que somente 34% do esgoto urbano do país é tratado, o que pode agravar ainda mais o impacto destes produtos no meio ambiente em geral.

Joga fora no lixo

Fora o que é despejado pelo esgoto, outro ponto que chama a atenção, são os resíduos sólidos que ficam após a utilização. Vasilhames, frascos, caixas e restos de tintas. Sem nenhuma espécie de coleta seletiva, acabam diretamente no lixo comum que é recolhido pelo SLU e são levados para o aterro sanitário onde são jogados ao ar livre. Às vezes, este lixo é encontrado e manuseado por catadores sem a menor proteção.
Existe uma cartilha disponibilizada pela Vigilância Sanitária em que são encontrados os procedimentos corretos de descarte de todo esse lixo produzido pelos salões. O SINCAAB deixa claro que não existe nenhuma lei que vise proibir ou fazer cumprir exatamente tais procedimentos. Entretanto, no SLU a informação foi contrária. Mas, de acordo com a inspetora Denise, essa cartilha está desatualizada.

A cartilha explica que o descarte de instrumentos pérfuros-cortantes deve ser feito em um recipiente rígido, com tampa, inquebrável, de paredes lisas que deverá conter água sanitária, de forma que o material fique submerso e precisa ser lacrado e identificado como material contaminado. A cabeleireira Solany, diz que corta os recipientes antes do descarte para que outras pessoas não reaproveitem. Entretanto, segundo o assessor, estes procedimentos são incorretos. “Esses materiais precisam ser tratados como o lixo hospitalar e os recipientes devem ser jogados inteiros, separadamente. O líquido restante, se a embalagem for cortada, pode se misturar a outros líquidos e o efeito pode ser pior do que o esperado”.

De acordo com Edmundo, a LEI Nº 4.352, de 30 de junho de 2009, de autoria do Deputado Cabo Patrício que dispõe sobre o tratamento e a disposição final dos resíduos dos serviços de saúde, deveria servir também para os produtos químicos e resíduos dos salões de beleza.

Para a química Patrícia Lootens, a poluição dos salões é perigosa e precisa ser controlada. No entanto, é o Estado que precisa dar um destino certo a esse material. “Do que adianta o cidadão comum se precaver e tentar dar um fim correto no seu lixo, se o próprio Estado não possui ferramentas para isso? É necessária uma ação presente e eficaz da parte do Estado antes que aconteça o que já aconteceu com outras metrópoles, como é o caso de São Paulo, aonde os rios chegaram a um nível de poluição tão absurdo que morreram e se tornaram esgotos a céu aberto”.

By Lucas Fuschino

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3 Respostas para “O lado obscuro da beleza

  1. CONCORDO PLENAMENTE, precizamos de socorro, sendo que existe a morte lenta dos profissionais de salão, por contaminação dos metais pesados, isso ninguem sabe,muitos estão morrendo, sem saber os diagnosticos.

  2. Estou com um estoque de produtos vencidos do salão de minha falecida mãe que era cabelereira até inicio deste ano. Fiquei procurando uma orientação para o descarte do material mas está dificil de achar na internet. Deveria haver maior facilidade no acesso às informações deste tipo. E ainda nos salões também, para que as pessoas que os frequentam possam cobrar e decidir sobre certos procedimentos dos profissionais que os atendem e os tipos de serviços que prestam. Enquanto a gente (mulheres, donas de casa) fica se preocupando com papel, plástico, vidro e alumínio doméstico prá reciclar milhares de salões por este Brasil envenenam nossa água. Precisamos usar mais do que tinta sobre nossas cabeças, que tal usarmos os nossos miolos prá pensar sobre o que colocamos sobre elas.

    • Pior, sei muito bem o que é isso. Tentei falar com muita gente para concluir esta reportagem e olha que foi difícil. Posso recomendar a você que, procure o serviço de coleta urbana da sua cidade para pedir a eles que tomem as providências necessárias. Acredito que eles até possam recolher, mas aposto que eles vão descartar como lixo comum. Enfim… A gente tenta ser correto, mas o Governo não ajuda.

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